Queridos amigos

Queridos amigos: não falo sobre ninguém em especial quando escrevo contos, tais quais esses que começo a postar nesse espaço: eles já são comichões antigos que agora afloram para serem lidos por aqueles que tiverem generosidade e  paciência.

Mas aviso: ainda que meus contos sejam precários, eles não são relatos de minha vida pessoal ou da vida de pessoas próximas.

São pequenos contos, simplesmente. Ainda que prescindam da necessária excelência dos verdadeiros contistas; ainda que passem ao largo do crivo da crítica e da espada da erudição.

Penso que, se tenho um blog, nele escrevo minhas impressões de viagem. Sejam elas literais ou em forma de poesias, contos ou crônicas.

Não se tratam, portanto, de resumos de momentos de minha vida, ou da vida de pessoas que nela transitam ou transitaram. Assim como não seria possível saber do cotidiano de João Guimarães Rosa ouvindo Riobaldo. Guardados, evidentemente, os anos-luz de distância entre o talento de Rosa e a minha precária verve.

Em suma: o que eu decidir escrever sobre mim, estará nomeado em meu nome. O que subscrevo em nome de personagens, personagens são.

Não sou escritora de verdade. Sou apenas uma tentativa de bem-dizer o que se expande em minha alma e não suporta não ser escrito. É um exercício. Apenas um relato sobre meu tempo e sobre meu espanto. E também uma forma de catarse. De construir e desconstruir e – por que não? – de me expor sem me exibir. De me traduzir em símbolos. Como me traduzo em símbolos quando me formulo em petições, cotidianamente.

E quem disse que também aí eu não sou eu? Ao mesmo tempo em que sou outros?

Jamais será um lamento. Ou uma confissão.

É claro que estou contida na minha fala, Assim como quem me lê também está contido na interpretação daquilo que lê.

E é do que lê que quem lê faz seu próprio conto. Existe coisa mais linda?

Dito isso, é preciso dizer também que quem pensa o contrário já enterrou a literatura. Não compreende a literatura.

Nem mesmo a minha, que insiste em ser assim tão precária.

Eu agradeço, com alegria desmetida, a generosidade daqueles que ainda insistem comigo.

Porque eu vou escrever mais. Sejam pacientes.

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A Pedra

Os mais íntimos tiveram acesso: o vídeo veio direto da superintendência. Algum porre extra, diziam, e olhavam com certa irreverência. Vindo dele tudo poderia ser. Ele era mais ou menos o dono do mundo.

Mas gargalhar daquela forma, em plena segunda-feira, no microfone da emissora associada? Ele estava exagerando. Ainda mais que permanecia de pijama. Sim: saiu às compras matinais de pijama, e foi isso o que mais chamou a atenção dos diários associados.

Ele concedeu a entrevista. À princípio não creditaram suas opiniões. Não formularam as perguntas que ele julgou pertinentes. Então ele tomou o microfone da moça antes que ela terminasse a previsão do tempo e, ao vivo, anunciou: “O mundo vai acabar”.

Seria irrelevante dizer que ele continuava lindo, carregando consigo os seus cinqüenta e três anos? Seria irrelevante admitir que seu pijama era de seda pura, comprado no Cairo, e seus chinelos que pisavam o asfalto sujo tinham a marca de algum internacional cartel que usufruía do trabalho e do comércio de frutas e petróleo, de aeronaves e da construção civil;  e de tecidos  tais quais o que ele vestia?

Seria irrelevante dizer que o mar de Ipanema era paisagem de fundo , enquanto ele esbravejava e gargalhava e gesticulava dizendo: “O mundo vai acabar”?

A classe média tem horror de ferir a “elegância inata” de seus colonizadores. É insuportável para ela ver um símbolo, um arcano, vociferar de pijama numa manhã de sol, em Ipanema, sem que isso lhe dilacere a alma, desequilibrando seu próprio status.

Não foi ao ar. O vídeo permaneceu indiferente à manhã e a padaria não foi mencionada sequer pelo pão nosso de cada dia.  Só assistiu àquele rompante ao vivo aqueles que, às sete da manhã, acompanharam o telejornal, com sua porção ao vivo.  Mas sem mais referências. Sem reproduções.

Ele subiu  as escadas de seu condomínio de luxo, carregando dois sonhos e duas cervejas. Vinte e dois andares com corredores largos e direito a gargalhadas esporádicas entre os desvãos. Subiu as escadas como um náufrago. Subiu pé ante pé, equilibrando-se entre as ondas. Já fazia algum tempo que o mundo era um moinho que moía tudo: a coluna social, a gravata, a foto dos filhos, a mulher de outrora, o Cristo Redentor.

De volta ao sofá que ainda resiste ao aplauso revelador esconde-se ele para que, furtado de si, seu antigo fantasma não o veja fumar a pedra.

Santa dor, êxtase final, alegria infinda. Sem volta. Sem retorno.

Sem amanhã senão o  mais próximo e mais breve.

Tudo o que ele fez foi grande. Ele é grande. É infinito.

E tudo permanece certo:  o mundo vai mesmo acabar.

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Esporádica e Contínoo.

Nos idos dos anos oitenta, Esporádica conheceu Contínoo. Ela o viu no restaurante, naquela noite em que tudo saiu ao contrário do planejado.  Mal podia imaginar que o freqüentador assíduo fosse se interessar por seu papo divergente. Era a final de um campeonato de futebol, com freqüentadores frenéticos e impiedosos. E Contínoo gritava enlouquecido. Mas calhou que, no intervalo comercial, ao dirigir-se pela décima vez ao mesmo garçom sem que fosse sequer necessário expressar-se, ele vislumbrou Esporádica, diáfana de atitudes.

E enquanto rolou a bola, no segundo tempo, Esporádica só fez falar sobre livros e poesia: foi amor à primeira vista.

Tiveram uma vida em comum por algum tempo mais que arrebatadora e, ainda que os êxtases fossem excêntricos um para o outro, eles se completavam. Esporádica amava a constância dele, sua dedicação, sua presença forte, sua rotina. E Contínoo amava em Esporádica a espontaneidade, o inusitado e a rebeldia. Amava também sua capacidade de “interagir em sociedade”. Ou seja: ganhar dinheiro.

Esporádica tinha fascínio pela erudição de Contínoo. Pelo seu bom gosto. E, é claro, também pela sua incapacidade de “interagir em sociedade”. Contínoo jamais ganhou mais dinheiro que Esporádica, no tempo em que viveram juntos.

Tiveram um menino que nasceu muito bem planejado, a quem deram o nome de Pretexto. E logo em seguida uma filha que nasceu sem planejamento, de nome Surpresa.

Pretexto sempre foi forte e sadio, para deleite dos pais que, dia à dia, o viam crescer enérgico e vigoroso. Já a pequena Surpresa sempre foi frágil e doentia. Mimada demais, dizia Contínoo. Infeliz como a mãe, começou a revidar Esporádica.

O fato é que as crianças nunca se deram. Onde Surpresa estava, não cabia Pretexto. Onde Pretexto freqüentava, Surpresa se recusava a ir.

Pretexto não possuía limites. Tudo para ele era possível. E o pai já acordava justificando o filho querido.

Já Surpresa era a menina que para sempre o desconcertou. Contínoo não entendia seus desejos. Não pactuava de seus rompantes. Não suportava sua incógnita.

Esporádica amava os filhos igualmente. Mas tinha uma certa afinidade culposa pela menina. Amava Surpresa no mais fundo de sua alma, porque sua presença fugaz lembrava-lhe sentimentos de asas e passarinhos. Esporádica só existia planando no ar. Mas Contínoo nunca entendeu, nem nela nem na menina, aquela dor de vales desertos, de falta de fôlego, de mar.

Contínoo sempre foi um homem bom e previsível. Abastecia a sua cota na casa. Saldava a sua parte nas dívidas. Anunciava com antecedência alguns espetáculos. Mas não combinava com a filha e, com o tempo, feriu a linguagem da mulher.

Entretanto, entendia-se perfeitamente com Pretexto.

Aliás, Pretexto cresceu como cópia cuspida e escarrada (esculpida em Carrara) de Contínoo. E o pai deliciava-se ao vislumbrar nele seus gestos mais banais.

Surpresa formou-se bailarina, fez cinema, surpreendeu-se quando conheceu Jung. E casou-se com Acaso de Oliveira Viegas, um engolidor de fogo que tornou-se milionário da loteria esportiva logo após conhecê-la e, em seguida e espantosamente, perdeu tudo num incêndio.

Mas Surpresa casou-se mesmo assim, porque no circo em que se conheceram, no interior da Turquia, ouviu dizer que perto dele tudo era possível. E isso lhe trouxe imensa satisfação e gozo.

Pretexto ingressou na Política. Tentou o Legislativo, onde obteve grandes êxitos temporários. Depois se especializou em análises críticas sobre o futuro do país, feitas sempre em canais televisivos de repercussão internacional.

Ainda hoje Pretexto é ouvido com respeito em virtude de sua erudição e empatia.

E suas previsões, como sempre, só fazem rir à sua irmã.

Mas é preciso dizer que antes, muito antes disso tudo, Esporádica e Contínoo se divorciaram. Ele não acreditou que fosse possível tamanha mudança. Ela acreditou que fosse possível tamanha felicidade.

Ele continua acreditando que sua ex-mulher é para sempre. A imagem de Esporádica permanecerá em seu coração como uma tarefa descontínua, insuportavelmente não terminada. E por não suportar o que ele acredita ser um mau feito, permanece cultivando um certo rancor de si mesmo e dela, o que ele traduz em ironias, malícias, boicotes e vingançazinhas baratas.

Ela percebeu que o amor além de ser descontínuo, é inusitado. Para sempre será. Eis que o amor, formulado tão verdadeiramente em letras tortas, jamais seria possível existir entre eles, por exemplo, se fosse visto de cima. Mas aconteceu. E foi lindo.

Daí que Esporádica guarda dessa fase uma lembrança doce e permanente. Em especial de tudo o que foi Surpresa e tudo o que foi Pretexto.

A preciosa lembrança daquele tempo inocente será para sempre, nela, uma mistura, um casamento: aqui e ali um tanto efêmera, lá e cá um tanto permanente.

Mas sem dor.

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Chiclete misturado com Banana.

Estou ficando redundante. Mas não posso me furtar: Natal é linda demais! Seu mar de um azul profundo em contraste com as areias bronzeadas de suas dunas são de tirar o fôlego. Pena que meu tempo foi precário e voltei pra casa esticando os olhos.

O Potiguar chama Natal de Noiva do Sol. A luminosidade do seu dia é impressionante, como a do Rio. Quase transparente. Brutal. E um mar feito de contrastes. A vegetação das dunas comporta o perfume dos cajueiros e a areia tem a cor (que cor é aquela?) de doce de leite.

Natal chama-se Natal pelo óbvio: a fortaleza dos Reis Magos, talvez a mais bela do litoral brasileiro, foi edificada ainda ao tempo em que Felipe II, da Espanha, governava Portugal. Foi ela que deu origem à cidade, fundada em 1599, no dia do nascimento de Jesus.

Colonizada primeiramente pelos franceses, teve também influência holandesa, só retornando ao domínio português em meados do século XVII.

Um parênteses: a fortaleza que deu origem à cidade foi tomada pelos holandeses após sangrento combate e, vencedores então, ela chegou a ser rebatizada como Nova Amsterdã. O mesmo nome que os holandeses deram à colônia que fundaram na América do Norte, na ilha de Manhattan e que mais tarde, reconquistada pelos ingleses, passaria a se chamar Nova York.

Pois é: colonizado não é só isso. É isso e aquilo. E aquilo outro.

Mas no caso de Natal, ainda há de modo muito evidente mais uma grande influência: a americana no século XX,  eis que a cidade foi base naval estratégica dos aliados na segunda guerra mundial, inclusive tendo sido ponto de encontro entre Vargas e Roosevelt durante o conflito. Graças à Deus sem o conhecimento dos alemães.

Daí que lá existe muito menino cujo nome é Raimundo Nonato mas tem por sobrenome Thompson. E ruas que contém Jones, Moore, Harris e tal.

Me fez rir muito a importância que eles dão ao Morro do Careca, no qual finda a Praia da Ponta Negra. É uma titica de morro desse tamanhinho, para eles um esplendor que não faz nem cócegas nos mineiros.

Vi lá um viaduto que é impressionante. Além de ser bem à vista do mar, ele lembra, visto de longe, uma jangada. Obra concebida por um artista plástico da região, de nome Newton Navarro. Sim: um artista concebeu um viaduto que se integra à paisagem. Estou tão desacostumada disso!

A chamada Via Costeira protege as dunas do avanço imobiliário. Ronaldo Fenômeno fez um hotel imenso na região, mas foi obrigado a fazê-lo com somente três pavimentos verticais. Ainda que ele ocupe, na horizontal, muito mais que o equivalente a um quarteirão. O cara está rico e não é nada bobo. Constrói suítes no paraíso.

Isso porque há leis proibindo que construções impeçam o vento de formar as dunas. Elas são móveis, claro, e estão razoavelmente longe, mas o vento não pode deixar de agir sobre elas, sob pena de graves desastres ambientais. Aliás, muitos edifícios são construídos com sua fachada de costas para o mar, exatamente por causa do vento.

Um vento fresco e bom. Uma água do mar quentinha. Um camarão roubado do Olimpo.

Dizem que o Parque das Dunas é protegido do avanço imobiliário por lei municipal, pois é constituído pela segunda (qual a primeira?) maior floresta urbana do país, com a fauna e a flora remanescentes da tipicidade do início da colonização.

Ah! Floresta urbana. Essa frase me causa arrepios. Penso logo no Krambeck, no Museu, no Morro do Imperador. E até no Paraibuna e  na Rio Branco depenada. E quase desfaleço ao pensar no meu pobre Parque Halfeld.

Por fim, os homens: os que habitam as praias me deram a impressão de que são todos bombeiros em dias de folga: sarados com cara de caboclo. E quem disse que  não há beleza nisso?

Natal é tão bela, tão bela, que só podia mesmo ser com ela que o menino deus faz festa no dia de seu aniversário.

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Os Destituídos

Os destituídos caminham pelo mundo com olhos que não são destituídos de ver. E percorrem seus caminhos com ouvidos não destituídos de ouvir. E a esses dois sentidos que, positivados, lhes dilaceram, soma-se outro, atrofiado: a fala. Aos destituídos resta impedida a fala que poderia redimir. Eles são o verbo que grita, reverbera e ecoa no íntimo – mas recua mudo frente à agressividade mais que sincera do mundo que lhes diz não, não te quero ouvir.

Os destituídos são muitos, porque são os exaltados ao contrário. O contrário das posses, o contrário da aparência, o contrário da beleza, o contrário da esperança, o contrário da inserção.

São os que não possuem nada daquilo que se considera necessário para ser bem-sucedido. E por não serem bem-sucedidos, não freqüentam a escala metafórica onde tudo é permitido. Então são baixos demais, ou por demais altos. São mancos, ou não possuem pernas ou braços, ou os possuem demais. Têm manchas, sotaques estranhos, cores disformes, cabelos em lugares estranhos, narizes avantajados, bocas miúdas, esporões. Dependendo de onde vivem, sequer podem viver: são louros, onde deveriam ser morenos. Ou são pretos e se transformam em alvos de espadas impiedosas. Nunca pagam com cartões internacionais as próprias e incessantes dívidas. Têm problemas de família.

Porque são destituídos: nunca extravagantes.

Mas entre os destituídos, também há os destituídos:

São aqueles que não estudaram o que deveriam, porque lhes foi insuportável ou maçante. Ou estudaram demais e passaram a ter dúvidas. Não leram, ou leram as letras erradas, deixando de sorrir para os instituídos na hora certa. Como se não bastasse, tiveram crises existenciais. E filhos, quando a ternura era outra. Além disso, ouviram outras vozes, extemporâneas. E fabricaram sonhos que, de tão pequenas pérolas, eram indecifráveis. Espalharam entre si gargalhadas sonoras e inocentes. Fizeram-se também em detalhes quase imperceptíveis e imaculados de dor e som; e silenciosas orações pagãs.

Em suma: perderam-se.

Até entre os destituídos, esses inocentes adentrarão sempre em lugares que não lhes cabem, percorrendo avenidas impedidas ao seu trânsito caótico. Daí infiltrarem-se sem querer em clubes fechados. Ai deles: serão taxados, carimbados, impedidos, e seu imposto será infinitamente mais arbitrário e pago à vista, isentos que são de usufruir de qualquer bondade.

Porque os velhos destituídos também aprenderam entre si a brincar de roda, e tocar a velha música onde para sempre  sobrará algum na dança das cadeiras.

E  também aprenderam a fazer a troça, eis que sempre restará um para ser o palhaço da ocasião.

E começaram a fazer apostas para comemorar aquele que morreu primeiro, destituído para sempre.

E há os destituídos que, quando adentram por hercúleo esforço ou por mera sorte, ou por entradas subterrâneas, nos vãos dos bem instituídos (toda fortuna pessoal é fruto de um crime, já dizia Marx) e passam a angariar grandes vantagens, começam a rir sem nenhum pudor na assembléia da vida: riem dos perdedores.

Então os velhos destituídos de ontem organizam-se em novos bancos, expõem-se como novos produtos, adquirem os itens da moda, arrumam seus narizes de acordo com o mais prestigiado nariz social, crescem em estatura, fabricam pernas e braços volantes, compram perfumes franceses, alisam ou enrolam seus cabelos, lêem livros de auto-ajuda e, ansiosos, pagam uma fortuna pelas maquetes de seus muros.

E, começam a peregrinar anualmente pelo Caminho de Santiago de Compostela, aproveitando o intervalo para visitar o Papa. O que faz o Papa mesmo?

Esses destituídos – já então cheios de perfeições – passam a não suportar mais o cheiro dos outros. Avançam, apenas, no sobreposto mundo de suas caricaturas.

E então esquecem. E passam a olhar o mundo com olhos de não ver, e percorrem novos caminhos com ouvidos de não ouvir. E a esses dois sentidos negativos somam outro, exaltado: a Lei. A Lei que eles promulgam, e que sempre haverá de dizer para os recém destituídos: não, não te quero ouvir.

Esquecem esses tolos, que somos feitos de incógnita. Porque a vida – bela dama que se casou com o tempo – se regozija todos os dias por ser grávida da incerteza.

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Ai que dó!

Acabei de voltar de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Do avião já dá pra perceber, na chegada, a exuberância do agronegócio. São campos verdes e férteis a se perder de vista.  Quilômetros incalculáveis antes de aterrissar.

Mas a grande surpresa, a grande beleza, é a arquitetura. Não. Não falo de Museus, Centros Culturais, Teatros, Palácios. Falo das ruas imensas e arborizadas que norteiam cada espaço urbano. Árvores que são monumentos ao ar livre. Parques que são monumentais. Corredores de jardins que são tratados como irrelevância, como se sua presença fosse tão natural quanto os japoneses.

Sim, porque a presença da colônia japonesa ajuda a entender o agronegócio, mas não a pujança  dos “fictos Benjamin” centenários, que dez homens de mãos dadas não serão capazes de abraçar, e que persistem em avançar pelos canteiros centrais mesmo que o táxi passe por dezenas de quarteirões até alcançar o hotel.

É uma cidade de planalto. O que torna o pôr do sol um espetáculo à parte e ainda mais arrogante sua estupenda arborização.

E ela não é assim tão recente. Campo Grande foi interior até a divisão do estado do Mato Grosso, que transformou Campo Grande em capital de um novo Estado, o Mato Grosso do Sul, há não mais que duas décadas, creio eu.

Portanto não dá pra dizer que houve qualquer planejamento urbano capaz de produzir as centenárias árvores que florescem nos canteiros centrais de toda a cidade. Canteiros que abrigam ainda uma infinidade de pássaros, bancos de praça, grama muito bem tratada e a necessária sombra, numa cidade quente como o inferno.

Fico triste, sabe? Fico com vergonha. Porque Juiz de Fora possui uma população descolada, que interage com o mundo – para o bem ou para o mal – mil vezes mais que a população daquele jardim disposto como um cartão postal no planalto brasileiro.

Por isso tenho vergonha, quando volto pra casa, de perceber que estamos sujos. Que nosso único grande parque parece uma miniatura daqueles canteiros bem cuidados e limpos. Que nosso Calçadão efervescente convida-nos a conviver com ratos, e não estou sendo metafórica! Que nosso lixo, cuja coleta é terceirizada, suja a cidade a cada vez que seus caminhões passam recolhendo detritos.

Eles, lá, não compreendem. Como compreender? Nossa cidade é conhecida, respeitada e gera curiosidade porque consideram-nos meio assim uma metrópole do Sudeste. E não sou eu quem vai falar mal de Juiz de Fora.

Volto numa segunda de manhã. A sensação é maravilhosa, enquanto o táxi vagueia por minha zona de conforto, eis que vai me deixar em casa, onde me espera o lar que conquistei e a cortina branda e leve que velará meu sono restaurador.

Mas comparo: nenhuma árvore faz sombra na minha avenida em obras que, quanto mais se aproximam do final, mais me entristecem. E nenhuma flor me acalma, porquanto não as há. E nenhum passeio escorregadio do Calçadão poderá se comparar à nitidez dos asfaltos e passeios limpos, pelos quais passeei numa cidade que, isenta de detritos, ainda haverá de percorrer muitos caminhos para alcançar a diversidade intelectual que a todos nós abriga, nesse imenso mosaico de possibilidades que é a nossa cidade politizada e cheia de opiniões.

Será?

Caminhamos numa cidade suja, remelenta, que repudia sua história derrubando prédios centenários e construindo obras toscas para fabricar um amanhã precário. E caminhamos sem gritar. Sem expor o horror de nossa indignação. Deixando acontecer, na nossa cara, impunemente, a nossa deformação.

O Promotor atravessa a rua e nada vê. O Vereador anda preocupado com seu bem querer. O Candidato prefere não se expor. A Associação de Classe tem efemérides a festejar.

Ninguém mora aqui?

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O Lobo e o Tempo

Não, não me venha com flores artificiais. Nem com artificiais sorrisos. Não chegue com a palavra feita, a resposta pronta ou elucubrações teóricas que jamais subirão além do rés do chão. Nem com meias palavras. Não sou meia mulher. Prefiro o silêncio à intelectualidade infame. Meu corpo carrega as cicatrizes do tempo dado. Nele está inscrita a minha história e ela não admite perfumes baratos. O suave odor das flores silvestres não faz mais morada em jarros de vidro já há algumas décadas: é preciso terra, adubo e águas que lhes sejam profundas em germinar.

Não, não me venha falar de Deus nem de templos. De Deus falo eu que O admito. Não você que, ao não descartá-lo, destrata-o. Você que transformou a própria vida em mercadoria barata exposta nas prateleiras. Você que é insumo de vendilhões. Creio sim no inexorável, porque não? Creio simplesmente, como a natureza das coisas também crê, e a resposta chama-se Tempo.

Não, não venha me dizer que a vida é assim mesmo. Assim mesmo como? Como você a reproduz? Os filhos cotidianos que você anda parindo não pertencem à minha natureza. Não os traduza para mim como se eles fossem normalidade. Não são.

E não venha me falar de nossas memórias. Minha memória distanciou-se da tua quando o teu verbo separou-se do meu. Quando o teu verbo esqueceu conjugações felizes. Quando teu verbo passou a ignorar o nós vos eles. Quando teu verbo passou a reproduzir distâncias.

Não, não me venha com esse olhar entre compreensivo e paternal de animal predador que, no entanto, há de defender para sempre a gazela imprevidente que conheceu ainda na infância de lobo. Você se transformou de menino, em lobo. Mas eu não sou gazela e não tenho amigos lobos. Os selvagens que conheço e admiro, se predadores, são apenas de si mesmos. Com eles sim, sou capaz de uivar na madrugada, em fabulosas noites de serões insanos. E amanhecer, eles e eu, saciados e ainda mais belos.

E, sobretudo, eles não produzem lixo.

Tenho alguns luxos, meu bem: um deles é o tempo, que está ao meu lado. E se ele me cobra vincos cada vez mais profundos, recompensa-me com a estranha solidez de permanecer, ainda que estupefata, genuína, tanto nos tempos frios quanto nos desérticos. E feliz como uma andorinha que para sempre saberá que importa menos o bater de asas do que o verão que se aproxima.

Permaneço fiel aos meus princípios. E essa síntese cabe numa só linha.  Mas está inscrita na milenar saga humana que é o mundo.

Faço parte daqueles que, modestamente, para sempre vão travar uma luta titânica pela preservação do homem e seus mistérios. E que, ao anoitecer de seus revezes, haverão de recolher-se sob a sombra da lua, para readquirir a força que, inserta na própria natureza, ressurgirá com o sol.

Não há melhor abrigo que aquele que não enrubesce à sombra da memória.

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