Nos idos dos anos oitenta, Esporádica conheceu Contínoo. Ela o viu no restaurante, naquela noite em que tudo saiu ao contrário do planejado. Mal podia imaginar que o freqüentador assíduo fosse se interessar por seu papo divergente. Era a final de um campeonato de futebol, com freqüentadores frenéticos e impiedosos. E Contínoo gritava enlouquecido. Mas calhou que, no intervalo comercial, ao dirigir-se pela décima vez ao mesmo garçom sem que fosse sequer necessário expressar-se, ele vislumbrou Esporádica, diáfana de atitudes.
E enquanto rolou a bola, no segundo tempo, Esporádica só fez falar sobre livros e poesia: foi amor à primeira vista.
Tiveram uma vida em comum por algum tempo mais que arrebatadora e, ainda que os êxtases fossem excêntricos um para o outro, eles se completavam. Esporádica amava a constância dele, sua dedicação, sua presença forte, sua rotina. E Contínoo amava em Esporádica a espontaneidade, o inusitado e a rebeldia. Amava também sua capacidade de “interagir em sociedade”. Ou seja: ganhar dinheiro.
Esporádica tinha fascínio pela erudição de Contínoo. Pelo seu bom gosto. E, é claro, também pela sua incapacidade de “interagir em sociedade”. Contínoo jamais ganhou mais dinheiro que Esporádica, no tempo em que viveram juntos.
Tiveram um menino que nasceu muito bem planejado, a quem deram o nome de Pretexto. E logo em seguida uma filha que nasceu sem planejamento, de nome Surpresa.
Pretexto sempre foi forte e sadio, para deleite dos pais que, dia à dia, o viam crescer enérgico e vigoroso. Já a pequena Surpresa sempre foi frágil e doentia. Mimada demais, dizia Contínoo. Infeliz como a mãe, começou a revidar Esporádica.
O fato é que as crianças nunca se deram. Onde Surpresa estava, não cabia Pretexto. Onde Pretexto freqüentava, Surpresa se recusava a ir.
Pretexto não possuía limites. Tudo para ele era possível. E o pai já acordava justificando o filho querido.
Já Surpresa era a menina que para sempre o desconcertou. Contínoo não entendia seus desejos. Não pactuava de seus rompantes. Não suportava sua incógnita.
Esporádica amava os filhos igualmente. Mas tinha uma certa afinidade culposa pela menina. Amava Surpresa no mais fundo de sua alma, porque sua presença fugaz lembrava-lhe sentimentos de asas e passarinhos. Esporádica só existia planando no ar. Mas Contínoo nunca entendeu, nem nela nem na menina, aquela dor de vales desertos, de falta de fôlego, de mar.
Contínoo sempre foi um homem bom e previsível. Abastecia a sua cota na casa. Saldava a sua parte nas dívidas. Anunciava com antecedência alguns espetáculos. Mas não combinava com a filha e, com o tempo, feriu a linguagem da mulher.
Entretanto, entendia-se perfeitamente com Pretexto.
Aliás, Pretexto cresceu como cópia cuspida e escarrada (esculpida em Carrara) de Contínoo. E o pai deliciava-se ao vislumbrar nele seus gestos mais banais.
Surpresa formou-se bailarina, fez cinema, surpreendeu-se quando conheceu Jung. E casou-se com Acaso de Oliveira Viegas, um engolidor de fogo que tornou-se milionário da loteria esportiva logo após conhecê-la e, em seguida e espantosamente, perdeu tudo num incêndio.
Mas Surpresa casou-se mesmo assim, porque no circo em que se conheceram, no interior da Turquia, ouviu dizer que perto dele tudo era possível. E isso lhe trouxe imensa satisfação e gozo.
Pretexto ingressou na Política. Tentou o Legislativo, onde obteve grandes êxitos temporários. Depois se especializou em análises críticas sobre o futuro do país, feitas sempre em canais televisivos de repercussão internacional.
Ainda hoje Pretexto é ouvido com respeito em virtude de sua erudição e empatia.
E suas previsões, como sempre, só fazem rir à sua irmã.
Mas é preciso dizer que antes, muito antes disso tudo, Esporádica e Contínoo se divorciaram. Ele não acreditou que fosse possível tamanha mudança. Ela acreditou que fosse possível tamanha felicidade.
Ele continua acreditando que sua ex-mulher é para sempre. A imagem de Esporádica permanecerá em seu coração como uma tarefa descontínua, insuportavelmente não terminada. E por não suportar o que ele acredita ser um mau feito, permanece cultivando um certo rancor de si mesmo e dela, o que ele traduz em ironias, malícias, boicotes e vingançazinhas baratas.
Ela percebeu que o amor além de ser descontínuo, é inusitado. Para sempre será. Eis que o amor, formulado tão verdadeiramente em letras tortas, jamais seria possível existir entre eles, por exemplo, se fosse visto de cima. Mas aconteceu. E foi lindo.
Daí que Esporádica guarda dessa fase uma lembrança doce e permanente. Em especial de tudo o que foi Surpresa e tudo o que foi Pretexto.
A preciosa lembrança daquele tempo inocente será para sempre, nela, uma mistura, um casamento: aqui e ali um tanto efêmera, lá e cá um tanto permanente.
Mas sem dor.